<html>
<head>
<style><!--
.hmmessage P
{
margin:0px;
padding:0px
}
body.hmmessage
{
font-size: 10pt;
font-family:Tahoma
}
--></style>
</head>
<body class='hmmessage'><div dir='ltr'>
Olá a todos.<br>Aqui vai uma opinião sobre Cultura que li recentemente no público que gostava de partilhar.<br><br>Abraços,<br>LR<br><br><div class="descriptionArticle" id="dvTexto" style="font-size:12px;">
        <span id="ctl00_ctl00_ContentPlaceHolder1_Detalhes_Texto_texto"><br><BR></span><h1><span id="ctl00_ctl00_ContentPlaceHolder1_Detalhes_Texto_titulo">Nada será como dantes<br></span><font style="font-size: 8pt;" size="1"><span id="ctl00_ctl00_ContentPlaceHolder1_Detalhes_Texto_data">27.10.2011 - António Pinto Ribeiro</span></font><font style="font-size: 8pt;" size="1">,</font> <i><font style="font-size: 8pt;" size="1">in Jornal Público</font></i><br></h1><font style="font-size: 12pt;" size="3"><span id="ctl00_ctl00_ContentPlaceHolder1_Detalhes_Texto_texto">Uma das 
cautelas a ter na análise dos tempos de que se é contemporâneo, 
dizem-nos Walter Benjamin e George Steiner, entre outros, é não 
enveredarmos pela glorificação do passado como idade do ouro, a partir 
da qual tudo se degradaria até à catástrofe final. No entanto, olhamos à
 nossa volta e tudo parece falir: o sistema financeiro, o Estado social,
 a construção europeia. As fronteiras da Europa, essas, estão 
transformadas em muralhas, o desemprego é histórico, a mercantilização 
radical da arte é uma evidência. Em outros países, como é o caso dos 
BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China), as suas economias parecem 
sustentar a ideia de que há um futuro. Contudo, e apesar da aparente 
ausência de ruínas nestas regiões, a ideia de futuro é muito egoísta; 
senão, como se compreende a chinesização da África, a desigualdade de 
rendimentos na Rússia, na China e na Índia, a par da ausência de 
direitos humanos em alguns destes países!? Diremos que é o facto de 
estarmos a viver "em cima" dos acontecimentos que não nos permite ver 
para lá do imediato e que, porventura, tudo não passa de um momento de 
um ciclo como já terá havido outros. Alguns, os mais velhos, já terão 
ido ao sótão buscar as capas da "Life" de Berlim de 45, e outros relêem 
por antecipação "As vinhas da ira" de John Steinbeck, ou revêem em DVD 
"Ladrões de Bicicletas" de Vittorio di Sica.<br><br>Já não temos só medo
 do presente e medo do passado; temos mais medo do futuro do que do 
presente. E desta situação à beira da ruína surge um pessimismo que pode
 ser atávico. E contudo nada será como dantes: nem as ruínas da paisagem
 do pós-guerra nem a abundância que prometia o capitalismo bolseiro da 
década de 80 na Europa e nos EUA. O capitalismo, tal como o foi até 
agora, faliu e no entanto não há um fora do sistema. Como o disse bem 
Marx, é no interior do sistema que se constroem as alternativas às 
contradições. É, pois, a partir da política condicionando a economia que
 as alterações têm de se fazer. E neste aspecto as questões da Cultura, 
incluindo a cultura artística, não estão excluídas destas mudanças.<br><br>Pode,
 no imediato, não ser necessariamente o melhor, mas este é o tempo de 
experimentar politicamente outras maneiras de transformar o estado das 
coisas, desde que não se tome a política apenas como estratégia de 
conquista e tomada de poder. Como dizia recentemente Marina Silva, 
precisamos de políticas a longo prazo para políticos de curto prazo.<br><br>A
 expressão "nunca mais será como antes", na verdade, deveria entre nós, e
 para uma parte dos sectores culturais, criar uma expectativa positiva 
de futuro, porque há áreas do sector onde se está a um nível tão baixo 
de sobrevivência que não será possível que o deserto ainda cresça mais. 
Admitamos que, no caso específico da Cultura, os episódios Europália 91,
 Lisboa 94 Capital Cultural, Expo 98 e a formação no final da década de 
90 de um Ministério da Cultura com um programa político bastante 
correcto, dado o facto de termos um primeiro-ministro com preocupações 
de natureza cultural, alguma folga orçamental, são episódios importantes
 mas não revelam um "antes" glorioso e absolutamente estruturante. 
Depois disto, e nomeadamente a partir do início da década, a total perda
 de valor e consideração é a expressão que a meu ver melhor qualifica a 
relação dos governos com a Cultura.<br><br>O fim do Ministério da 
Cultura foi um rude golpe, porque atingiu a cultura na sua dimensão de 
representatividade e de parceria da vida da comunidade. Relegada para 
uma secretaria executiva de um processo de emagrecimento dos orçamentos,
 sem possibilidade de representatividade simbólica nacional e 
internacional, foi a própria actividade cultural que foi desconsiderada e
 diminuída na sua expressão e necessidade. Imagine-se que tal acontecia à
 Defesa ou aos Negócios Estrangeiros para se ter uma comparação dos 
estragos. A nível internacional, então, é a anulação total de Portugal 
como parceiro nas expectativas de participação numa comunidade europeia.
 Os que assim o decidiram têm da cultura uma ideia exclusiva de consumo.
 Mas cultura não é uma coisa; o termo, que ao longo da história tem tido
 alterações conceptuais, deverá ser pensado como um sistema de relações 
entre pessoas, entre comunidades, entre imaginários mediados por 
objectos mais materiais ou imateriais que os ligam, como ligam 
economias, bem-estar social, educação, etc. Ao desvalorizar a cultura 
foi a desvalorização destas relações que se pôs em prática, foi a 
amputação de parte do sistema de vivências e de imaginários e de 
economias relacionais que acabaram. Cultura não é um livro ou um 
espectáculo, é o livro e o espectáculo e a relação prática destes com os
 leitores, actuando sobre uma biografia, uma economia doméstica, uma 
tradição mais longa ou mais curta, num tempo específico e num contexto 
em relação com outros contextos e pessoas, a partir de representações 
sobre os outros e expectativas e imagens sobre o futuro; é isto a 
Cultura. Mas é mais adequado, como o propõe Appadurai, substituir o 
substantivo "cultura" pelo adjectivo "cultural", sendo que este 
adjectivo resulta de múltiplos agentes e enunciadores, onde cabem 
múltiplas instâncias de poder do Estado, mas não se esgotam nelas. 
Contudo, e ao contrário do que se quer fazer crer quanto mais são os 
actores deste cultural, tanto mais é necessário que o Estado esteja 
presente; de múltiplas formas conforme o tempo, as disciplinas, o 
contexto, mas não se pode abdicar do Estado como instância que garante a
 diversidade e a protecção das escalas de recepção e produção 
minoritárias. Esta não abdicação é claramente assente na tradição 
europeia de sustentação da cultura. Benjamin Arditti estudou bem as 
fórmulas do populismo e concluiu que o populismo é um espectro da 
democracia e uma interna periferia das políticas democráticas. O 
populismo é um modo de representação que tem um endereço directo e usa a
 interpelação do "nós, o povo" por um carismático líder cujas condições 
de existência são próprias da idade dos media. É o populismo que diz que
 não podemos construir uma biblioteca porque precisamos de um hospital. 
Ora, não abdicar do Estado é não aceitar esta falsa e última escolha, 
porque ambos - o hospital e a biblioteca - são necessários e ambos são 
possíveis em escalas justas. É, pois, imperioso pensarmos de modo 
diferente o modo de viabilizar a parte do cultural que depende da 
produção, da difusão e do institucional pragmático assegurado pelo 
Estado.<br><br>Mais do que nunca era necessário ter uma Política 
Cultural que naturalmente não abrangesse, como nunca abrangeu, todos os 
aspectos da vida cultural e social de uma comunidade. Uma política 
cultural define os seus objectivos analisando como é que as artes e o 
património podem ser vistos como recursos e usados ao serviço de 
objectivos, de fins, tais como crescimento económico, emprego ou coesão 
social. Define escolhas em relação às heranças, ao património. Por que 
escolher o livro e subsidiá-lo e não o reportório de teatro por exemplo?
 Acresce que há uma hierarquia de prioridades que correspondem às 
prioridades na actualidade: acessibilidade dos cidadãos às práticas 
artísticas quer como actores, quer como receptores; estímulo e apoio à 
produção; estímulo e apoio à difusão do conjunto de objectos da produção
 artística produzidos no país nacional e internacionalmente; estímulo, 
apoio e uso da herança cultural.<br><br>Para lá das políticas culturais 
dos governos, que são imprescindíveis, há um sistema onde o mercado pode
 sustentar parte da cultura contemporânea: as instituições privadas e os
 sistemas privados podem, por sua vez, oferecer bens e serviços 
relacionados com a cultura. Mas também aqui há que acautelar a 
propaganda das políticas instrumentais dos governos que os neo-liberais 
propagandeiam ao afirmarem a possibilidade da privatização da cultura, 
sustentando-se no sucesso das parcerias público-privadas invulgarmente 
rentáveis, nos empreendimentos e auto-sustentação e outros termos 
fetiches, testemunhos da proliferação dos estudos do impacto económico 
da cultura - dos anos 80 e 90 e dos mitos dos anos 90 da salvação 
económica dos países através das indústrias criativas.<br><br>Ainda a 
propósito de mercado e de comércio, há porventura muitas outras soluções
 que vão para lá do "standard" da distribuição capitalista. Recentemente
 uma banda brasileira - A banda mais bonita da cidade - necessitava de 
recursos para custear um novo CD. Colocou o pedido na net e os fãs 
acorreram, contribuindo para a produção do respectivo clip. Assim que o 
valor necessário foi atingido, a banda anunciou que não eram necessários
 mais contributos. Mónica Calle, recentemente, inaugurou uma campanha de
 pedido de mecenato. A singularidade deste mecenato é que ele não se 
revestia de um contributo glamoroso ou publicitário mas tinha como 
destinatários os cidadãos comuns que pudessem contribuir com 12 euros 
por ano. A outro nível é possível fazer intervenções no mercado das 
artes, nomeadamente nos "cachets" das estrelas do mercado da música 
erudita. Do mesmo modo que não é virtuoso (Aristóteles) que os gestores 
das empresas ou os jogadores de futebol ganhem fortunas obscenas, também
 seria de conter os honorários absurdamente altos de divas da ópera, 
directores de orquestras ou músicos rock. A redução dos seus "cachets" 
permitiria uma melhor distribuição de salários pelos outros 
trabalhadores da área e o embaratecimento do custo de cadeira por 
espectáculo. O sector cultural, sem abdicar do futuro, pode e deve 
também ele experimentar outros modos de produção. "Home" é um projecto 
da autoria de Jasa Jenull; é um projecto internacional de residências 
assente nas seguintes premissas: Trabalhar com o que temos, Juntos vamos
 fazer qualquer coisa, Podemos fazer melhor? Em algumas situações pode 
parecer-nos que o que vai prevalecer no futuro será uma "arte povera"; 
será concerteza uma arte testemunha destes tempos de incerteza. 
Porventura será, mas será ainda arte. Até por isto precisávamos tanto de
 uma Política Cultural.<BR></span></font>
    </div><br>                                        </div></body>
</html>