[ARENA] notas sobre a desAXAização da arte na cidade

Cláudia Rocha Lopes oferece hotmail.com
Terça-Feira, 14 de Maio de 2013 - 10:03:30 WEST


Olá a todos!Raramente me pronuncio assim publicamente mas confesso que fiquei um pouco baralhada. Li os textos do Fernando e não vejo onde possa estar tanto mal entendido. Com AXA ou sem AXA, há muito que precisamos de encontrar espaços que permitam a independência do processo criativo. E aí, sim, vejo onde está o ponto fulcral da proposta do Fernando. E acredito que (ainda) somos todos livres de poder expressar o nosso ponto de vista e de poder mostrar solidariedade para com os nossos amigos e colegas, seja em que circunstância for. Assim, deixo a minha palavra de apoio aos meus amigos que expuseram no AXA e que, pelas suas razões, decidiram não continuar com o projecto, da mesma forma que deixo também um obrigada ao Fernando pela sua proposta.
Cláudia Lopes


From: dalila_cg  hotmail.com
To: arena  lists.virose.pt
Date: Mon, 13 May 2013 17:49:05 +0000
Subject: Re: [ARENA] notas sobre a desAXAização da arte na cidade




Também gritei com o golo do Kelvin...
Entrei no Axa por ilusão, saí por convicção.
Obrigado Fernado, 
Percebi claramente a intencionalidade do teu email e a tua solidariedade... tornaram-se ainda mais forte no contexto da tua forma de pensar.

Dalila Gonçalves


From: ml  virose.pt
Date: Mon, 13 May 2013 18:18:50 +0100
To: arena  lists.virose.pt
Subject: Re: [ARENA] notas sobre a desAXAização da arte na cidade

Olá fernando
Ainda esta manhã nos encontrámos... Falamos do golo do Kelvin e das gargantas roucas dos amigos mas nem uma palavra sobre a desanosognosia (talvez porque seja uma daquelas palavras impronunciáveis ....)
Não me lembro de te ver pelo Axa e também não apareceste na sexta para beber uns copos connosco. Não sabes o que perdeste. Há por aí muita gente a escrever sobre isto mas li poucas coisas com tino, muito poucas, duas ou três se tanto. Parecem querer todos aproveitar-se da coisa... e se não há tempo para escrever coisas novas, sobra sempre o maravilhoso disco de não sei quantos terabytes onde guardamos as cartas que não quisemos enviar aos amigos na altura certa :-)
Sobre a desanosognosia não digo nada. O Agamben não tem culpa nenhuma e acho que não quer nem merece  fazer parte desta história...
Sobra apenas a ligação primária entre a primeira e a terceira parte do texto. Estás (estão) mesmo a falar a sério?  Só me ocorre que há alturas em que o mais fácil é mesmo não pensar.... Não pensar e mesmo assim dizer algumas coisa...
Esta história é bem mais colorida do que parece e até podia ser divertida, como foi na sexta em frente às garrafas de whiskas, mas alguns insistem em reclamar para esta farsa uma dimensão trágica que ela não tem, mas não tem mesmo. Não é por chamarmos nomes a uma pedra que ela se levanta e anda. É preciso qualquer coisa mais para fazer um filme, pelo menos um bom filme, daqueles que têm pedras que andam e voam...
Da próxima vez que nos encontrarmos mostro-te outra vez aquele gag do youtube. A ver se nos rimos um bocado...

ab
ml



On 13May2013, at 3:33 PM, Fernando José Pereira wrote:Olá a todosOuvimos outro dia este termo novo que muito nos agradou: desAXAização da arte. A partir dele decidimos partilhar estas reflexões com todos vós.
AbraçoFernando José Pereira e Tiago Assis

1: Uma historieta verdadeira;2: um texto reflexivo;3: uma proposta de acção.
1: Os dias a seguir ao 25 de Abril de 1974 proporcionaram, a quem os viveu, momentos inesquecíveis. Um desses momentos foi corporizado pela organização de uma sessão de "Canto Livre" (uma espécie de concerto com os cantautores que já vinham da resistência ao fascismo e que, agora, podiam passar as suas palavras e músicas livremente para quem os quisesse ouvir) no Ateneu Comercial do Porto. Era um lugar de muitas cumplicidades com o regime caído e, nesses dias a seguir à Revolução, quiseram também associar-se às novas formas de estar. Era um espaço estranho, logo desde a entrada com a sua estatueta de homenagem ao "facho" no patamar da escadaria até à configuração da sala com os digníssimos sócios sentados em poltronas numa espécie de balcão e, os de fora, os que vinham para o "canto livre" amontoados numa plateia improvisada. À hora de abertura nada aconteceu, esperou-se, esperou-se e passado algum tempo apareceu um dos cantores a ler um comunicado que dizia que se recusavam a participar naquela farsa e que convidavam quem os quisesse mesmo ouvir a sair e a ir com eles até ao Teatro Experimental do Porto. Aí, sim, tivemos a oportunidade de assistir a uma noite inesquecível de boa música e muita dignidade.
2: desanosognosia A determinada altura do livro “O estado de excepção” de Giorgio Agamben o autor refere-se a uma questão determinante: o ponto de vista que, neste contexto, é determinado a partir de uma ordem jurídica que requer reconhecimento por uma outra que se lhe opõe. Diz o filósofo citando o jurista italiano Santi Romano: “...depois de ter reconhecido a natureza anti-jurídica das forças revolucionárias, acrescenta que tal só funciona desta forma em relação ao direito positivo do Estado contra o qual se dirige, mas isto não quer dizer que, de um ponto de vista bem diferente, desde o qual elas se definem a si mesmas, não seja um movimento ordenado e regulado pelo seu próprio direito. O que também quer dizer que é um ordenamento que se deve classificar na categoria dos ordenamentos jurídicos originários, no sentido que se atribui a esta expressão. Neste sentido e dentro dos limites que foram indicados pode-se, portanto, falar de um direito da revolução.”Quer dizer, ainda na perspectiva de Agamben, que a ideia da ordenação jurídica do Estado ser a única por se opor eficazmente ao que normalmente é designado por caos é, antes de mais, redutora e falaciosa. Uma coisa, contudo, é correcta: toda a estruturação mental relativa à dualidade exclusão vs. inclusão depende única e simplesmente do ponto de vista. E este é, talvez, o ponto mais importante para tornar claro o relacionamento que é intrínseco e impossível de ocultar, antes de mais, porque ele é, também, a fonte da essencialidade do político, isto é, a necessária constatação do antagonismo.Por todo o lado na cidade de Atenas está pintada a frase “Fuck May 68; Fight now!”. Ela é o testemunho físico das manifestações que aí decorreram no início da crise em que o país se encontra mergulhado no já distante Dezembro de 2008. Mas é, também e sobretudo, um sério aviso a todos aqueles que, de algum modo, encaram o combate com o olhar nostálgico dos que perderam o horizonte. Foi, aliás, desta forma que Jacques Rancière se referiu, num texto lido nas Conferências de Moscovo, realizadas por altura da Bienal de 2008, à reacção da esquerda ao estado actual do mundo.O significado profundo das palavras pintadas nas paredes gregas remete para um ajuste de contas que já não é sequer identificável com o idealismo de 68 e que concentra nos seus núcleos os ensinamentos de outras revoltas mais recentes e muito menos contextualizadas ideologicamente. As reacções juvenis, havidas um pouco por todo o lado, ao aprofundamento da invasão globalizadora tornaram-se no novo modus facienti de toda uma geração. A desorganização em que se movimentam e a ausência de controlo fazem com que se tornem, de imediato, incómodas e suspeitas aos olhos das ditas organizações políticas “responsáveis”, mesmo para as suas organizações juvenis.Aquelas que nas actuais condições políticas do capitalismo em crise se mostram como totalmente alheadas da vida real e das realidades que daí advêm. Aparentemente é de um violento paradoxo que se trata mas, como em tudo neste nosso tempo imagético, a aparência é afinal o lado tangível da realidade. Vejamos: a crítica mais generalizada aos jovens é a do seu distanciamento relativamente ao fenómeno do político. Alguns, contudo, militam nas organizações juvenis dos partidos políticos ditos do arco do poder, ou seja, dos “responsáveis”. Mas essa militância apenas tem uma ligação fonética com a palavra pois o seu significado modificou-se de tal forma que é difícil encontrar qualquer similitude. São esses que hoje ocupam os corredores do poder aos mais variados níveis (do parlamento europeu aos modestos e incógnitos jobs for the boys...) exercendo aí a política como uma profissão que, dizem-nos constantemente, deve ser respeitável. Autênticos apparatchicks pós-políticos.Nas ruas, os outros, jovens encapuçados (protecção essencial contra as cargas policiais) encarnam essa máxima do niilismo punk do no future, “arruinando a hipótese de um estado moderno(?)” como clamaram, em pânico, os media em clara sintonia com este tempo gloriosamente asséptico e maquínico de um only future que, acima de tudo, odeia e diaboliza a ideia de se poder não estar de acordo. Uma espécie de doença, dizem...A palavra anosognosia refere-se a um estado patológico em que o paciente não tem consciência do seu verdadeiro estado. O acrescento do prefixo des quer significar em dupla condição: por um lado construindo uma nova palavra que quer ter um significado específico; por outro, evitando a ratoeira de utilizar uma palavra existente para significações diversas. Queremos ser inequívocos, a palavra desanosognosia (que existe por nossa inteira vontade a partir do projecto com esses nome que fizemos em 2010) quer significar uma consciência aguda do estado das coisas. Tão patologicamente aguda que descontrolada. 
3: Agora que voltaram a existir, por parte dos artistas, atitudes dignas, ao dizer não à prepotência e à censura exercida recentemente pelo poder (sim, estamos a referir-nos à polémica em torno da AXA) deveremos passar a outro plano de acção. Não chega dizer não. Devemos encontrar formas de tornar a dar visibilidade a todos os que assumiram a posição ética da solidariedade e da independência de pensamento. Devemos, passar palavra para tentar encontrar espaços autogestionados, alternativos e independentes onde se possam montar as peças desmontadas e ou censuradas. Por certo que os há. Temos é que ser activos, procurar e criar as condições para que existam. 
As propostas que apareçam são bem vindas.
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