[ARENA] notas sobre a desAXAização da arte na cidade

Cristina Mateus cm virose.pt
Segunda-Feira, 13 de Maio de 2013 - 16:26:39 WEST


Olá Fernando,
Fico admirada como tentas ligar-te a acontecimentos que não viveste por dentro. Sabes que isso faz toda a diferença.
O aproveitamento que os políticos fazem das coisas é semelhante a este que estás a fazer. Usas um texto antigo para o actualizar?
Boa sorte para a discussão lançada. 

Que fácil que é dizer que o poder exerce censura! Em Beja (projecto que viveste por dentro) essa palavra nunca apareceu, nunca foi usada! Porquê agora?

"Devemos encontrar formas de tornar a dar a visibilidade a todos os que assumiram a posição ética da solidariedade e da independência de pensamento" ??? O que é isto????
"Atitudes dignas" ??? O que é isto???

Peço esclarecimentos! É preciso ouvir todas as pessoas envolvidas, não só as que lançam declarações para os jornais!

Um beijo
cristina

On May 13, 2013, at 3:33 PM, Fernando José Pereira wrote:

> Olá a todos
> 
> Ouvimos outro dia este termo novo que muito nos agradou: desAXAização da arte. A partir dele decidimos partilhar estas reflexões com todos vós.
> 
> Abraço
> Fernando José Pereira e Tiago Assis
> 
> 
> 1: Uma historieta verdadeira;
> 
> 2: um texto reflexivo;
> 
> 3: uma proposta de acção.
> 
> 
> 1: Os dias a seguir ao 25 de Abril de 1974 proporcionaram, a quem os viveu, momentos inesquecíveis. Um desses momentos foi corporizado pela organização de uma sessão de "Canto Livre" (uma espécie de concerto com os cantautores que já vinham da resistência ao fascismo e que, agora, podiam passar as suas palavras e músicas livremente para quem os quisesse ouvir) no Ateneu Comercial do Porto. Era um lugar de muitas cumplicidades com o regime caído e, nesses dias a seguir à Revolução, quiseram também associar-se às novas formas de estar. Era um espaço estranho, logo desde a entrada com a sua estatueta de homenagem ao "facho" no patamar da escadaria até à configuração da sala com os digníssimos sócios sentados em poltronas numa espécie de balcão e, os de fora, os que vinham para o "canto livre" amontoados numa plateia improvisada. À hora de abertura nada aconteceu, esperou-se, esperou-se e passado algum tempo apareceu um dos cantores a ler um comunicado que dizia que se recusavam a participar naquela farsa e que convidavam quem os quisesse mesmo ouvir a sair e a ir com eles até ao Teatro Experimental do Porto. Aí, sim, tivemos a oportunidade de assistir a uma noite inesquecível de boa música e muita dignidade.
> 
> 
> 
> 2: desanosognosia
> 
>  A determinada altura do livro “O estado de excepção” de Giorgio Agamben o autor refere-se a uma questão determinante: o ponto de vista que, neste contexto, é determinado a partir de uma ordem jurídica que requer reconhecimento por uma outra que se lhe opõe. Diz o filósofo citando o jurista italiano Santi Romano: “...depois de ter reconhecido a natureza anti-jurídica das forças revolucionárias, acrescenta que tal só funciona desta forma em relação ao direito positivo do Estado contra o qual se dirige, mas isto não quer dizer que, de um ponto de vista bem diferente, desde o qual elas se definem a si mesmas, não seja um movimento ordenado e regulado pelo seu próprio direito. O que também quer dizer que é um ordenamento que se deve classificar na categoria dos ordenamentos jurídicos originários, no sentido que se atribui a esta expressão. Neste sentido e dentro dos limites que foram indicados pode-se, portanto, falar de um direito da revolução.”
> Quer dizer, ainda na perspectiva de Agamben, que a ideia da ordenação jurídica do Estado ser a única por se opor eficazmente ao que normalmente é designado por caos é, antes de mais, redutora e falaciosa. Uma coisa, contudo, é correcta: toda a estruturação mental relativa à dualidade exclusão vs. inclusão depende única e simplesmente do ponto de vista. E este é, talvez, o ponto mais importante para tornar claro o relacionamento que é intrínseco e impossível de ocultar, antes de mais, porque ele é, também, a fonte da essencialidade do político, isto é, a necessária constatação do antagonismo.
> 
> Por todo o lado na cidade de Atenas está pintada a frase “Fuck May 68; Fight now!”. Ela é o testemunho físico das manifestações que aí decorreram no início da crise em que o país se encontra mergulhado no já distante Dezembro de 2008. Mas é, também e sobretudo, um sério aviso a todos aqueles que, de algum modo, encaram o combate com o olhar nostálgico dos que perderam o horizonte. Foi, aliás, desta forma que Jacques Rancière se referiu, num texto lido nas Conferências de Moscovo, realizadas por altura da Bienal de 2008, à reacção da esquerda ao estado actual do mundo.
> 
> O significado profundo das palavras pintadas nas paredes gregas remete para um ajuste de contas que já não é sequer identificável com o idealismo de 68 e que concentra nos seus núcleos os ensinamentos de outras revoltas mais recentes e muito menos contextualizadas ideologicamente. As reacções juvenis, havidas um pouco por todo o lado, ao aprofundamento da invasão globalizadora tornaram-se no novo modus facienti de toda uma geração. A desorganização em que se movimentam e a ausência de controlo fazem com que se tornem, de imediato, incómodas e suspeitas aos olhos das ditas organizações políticas “responsáveis”, mesmo para as suas organizações juvenis.
> 
> Aquelas que nas actuais condições políticas do capitalismo em crise se mostram como totalmente alheadas da vida real e das realidades que daí advêm. Aparentemente é de um violento paradoxo que se trata mas, como em tudo neste nosso tempo imagético, a aparência é afinal o lado tangível da realidade. Vejamos: a crítica mais generalizada aos jovens é a do seu distanciamento relativamente ao fenómeno do político. Alguns, contudo, militam nas organizações juvenis dos partidos políticos ditos do arco do poder, ou seja, dos “responsáveis”. Mas essa militância apenas tem uma ligação fonética com a palavra pois o seu significado modificou-se de tal forma que é difícil encontrar qualquer similitude. São esses que hoje ocupam os corredores do poder aos mais variados níveis (do parlamento europeu aos modestos e incógnitos jobs for the boys...) exercendo aí a política como uma profissão que, dizem-nos constantemente, deve ser respeitável. Autênticos apparatchicks pós-políticos.
> 
> Nas ruas, os outros, jovens encapuçados (protecção essencial contra as cargas policiais) encarnam essa máxima do niilismo punk do no future, “arruinando a hipótese de um estado moderno(?)” como clamaram, em pânico, os media em clara sintonia com este tempo gloriosamente asséptico e maquínico de um only future que, acima de tudo, odeia e diaboliza a ideia de se poder não estar de acordo. Uma espécie de doença, dizem...
> 
> A palavra anosognosia refere-se a um estado patológico em que o paciente não tem consciência do seu verdadeiro estado. O acrescento do prefixo des quer significar em dupla condição: por um lado construindo uma nova palavra que quer ter um significado específico; por outro, evitando a ratoeira de utilizar uma palavra existente para significações diversas. Queremos ser inequívocos, a palavra desanosognosia (que existe por nossa inteira vontade a partir do projecto com esses nome que fizemos em 2010) quer significar uma consciência aguda do estado das coisas. Tão patologicamente aguda que descontrolada.
> 
>  
> 3: Agora que voltaram a existir, por parte dos artistas, atitudes dignas, ao dizer não à prepotência e à censura exercida recentemente pelo poder (sim, estamos a referir-nos à polémica em torno da AXA) deveremos passar a outro plano de acção. Não chega dizer não. Devemos encontrar formas de tornar a dar visibilidade a todos os que assumiram a posição ética da solidariedade e da independência de pensamento. Devemos, passar palavra para tentar encontrar espaços autogestionados, alternativos e independentes onde se possam montar as peças desmontadas e ou censuradas. Por certo que os há. Temos é que ser activos, procurar e criar as condições para que existam. 
> 
> As propostas que apareçam são bem vindas.
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